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Primeira individual da 34? Bienal traz reflex?es sobre o extrativismo e a coloniza??o na Am rica Latina
03 Fev 2020
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Ximena Garrido-Lecca inaugura a s rie com 9 obras que estar?o expostas no 3? pavimento do Pavilh?o da Bienal at  15 de mar?o. Visita??o de quarta a domingo, das 10h  s 18h. Entrada gratuita.

A 34? Bienal de S?o Paulo Faz escuro mas eu canto, abre no s bado, 8 de fevereiro, a partir das 9 horas, a primeira da s rie de tr s exposi??es individuais que introduzem parte dos temas que ser?o retomados pela mostra principal, em setembro deste ano. A mostra monogr fica de Ximena Garrido-Lecca (n. 1980, Lima, Peru) inaugura a s rie com 9 obras, entre instala??es, fotografias e v deos, que estar?o expostas no 3? pavimento do Pavilh?o da Bienal at  15 de mar?o. Trata-se da primeira exposi??o individual no Brasil da artista, que trabalha entre Lima e Cidade do M xico e pesquisa a hist ria do Peru e os impactos dos processos coloniais e suas consequ ncias contempor?neas. No mesmo dia,  s 11 horas, o sul-africano Neo Muyanga (n. 1974, Soweto) apresenta a performance musical in dita A maze in grace, que vai se espalhar por diversos pisos do Pavilh?o, ao redor de seu ic?nico v?o central.

Ximena Garrido-Lecca

Em sua obra, Garrido-Lecca parte com frequ ncia de um estudo de t cnicas e materiais empregados no artesanato, arte e arquitetura ao longo da hist ria peruana. As instala??es apresentadas na 34? Bienal utilizam t cnicas ancestrais de cer?mica e a tecelagem, al m de materiais como cobre, barris de petr leo,  leo, madeira, arame, pregos e plantas. Um de seus trabalhos mais emblem ticos, Insurgencias bot nicas: Phaseolus Lunatus [Insurg ncias bot?nicas: Phaseolus Lunatus], de 2017,   uma instala??o com estrutura hidrop?nica em que s?o plantadas mudas de favas da esp cie Phaseolus lunatus. Como as plantas ir?o crescer ao longo do ano, o p blico ter  a oportunidade de acompanhar diferentes momentos da? transforma??o da instala??o, num movimento que de certa forma simboliza o da pr pria Bienal, que   inaugurada agora mas ir  se ampliando, transformando e problematizando at  dezembro. Para Garrido-Lecca, o gesto de cultivar as favas representa uma esp cie de re-ativa??o simb lica do suposto sistema de comunica??o da cultura Moche, uma civiliza??o peruana pr -incaica que desenvolveu complexos sistemas hidr ulicos de irriga??o e que, segundo teorias, valia-se das manchas presentes nessas favas como signos para uma escrita ideogram tica.

Outra obra de destaque   a instala??o Proyecto pa s [Projeto pa s], que integra a s rie Paredes de progreso [Paredes de progresso], realizada pela artista entre 2008 e 2012, a partir de uma pesquisa sobre an ncios pintados em paredes de adobe na regi?o do Vale Sagrado, no Peru. Erguidos segundo uma t cnica construtiva tradicional, frequente pelo territ rio rural do pa s, esses muros se tornaram suporte para slogans pol ticos e logotipos partid rios, que v?o desvanecendo at  desbotar por completo, ou at  a dissolu??o das pr prias paredes, j  que o adobe, quando exposto   intemp rie, se desfaz pouco a pouco na paisagem. Proyecto pa s foi o nome de um pequeno partido pol tico que participou das elei??es peruanas em 2006, mas que acabou se retirando do pleito e desaparecendo devido   falta de seguidores.

Para criar a s rie de fotografias Divergent Lots [Lotes divergentes], Garrido-Lecca fotografou Pucusana, distrito litor?neo da prov ncia de Lima, por tr s anos (2010-2013). A artista documentou uma s rie de estruturas compostas originalmente por esteiras de bambu e postes de madeira, e que, ao longo dos anos, passaram a incorporar materiais como tijolos e concreto. Tais estruturas tempor rias s?o constru das com o intuito de reivindicar a posse da terra nessas  reas, marcadas, desde a d cada de 1950, por um grande afluxo migrat rio de popula??es que deixam as regi?es agr colas andinas e buscam condi??es de vida e de trabalho melhores nas  reas de desenvolvimento industrial e urbano. A popula??o migrante ocupa por??es de terra e procura formas de sobreviv ncia frequentemente ligadas a setores informais da economia. O v deo L neas de divergencia [Linhas de diverg ncia] documenta um momento recente das ocupa??es no entorno de Pucusana; as linhas marcadas com giz no deserto dividem terras j  registradas em lotes e demarcam novos terrenos.

Carla Zaccagnini, curadora convidada da 34? Bienal, explica: “come?amos a 34a Bienal de S?o Paulo com esta s rie de obras de Ximena Garrido-Lecca. Obras que podem nos ajudar a enxergar as rela??es existentes entre a inven??o da eletricidade, a extra??o do cobre, a demarca??o da terra, a depreda??o do solo e a dissemina??o de povos. Porque sabemos que a arte pode nos dar ferramentas para lidar com momentos dif ceis em que outras linguagens nos faltam ou falham”.?

A exposi??o   realizada em parceria com o CCA Wattis (S?o Francisco, EUA), que, em 2021, vai receber uma individual da artista como parte das colabora??es internacionais da 34? Bienal de S?o Paulo.?

Neo Muyanga A maze in grace

No dia 8 de fevereiro,  s 11 horas, acontece a performance in dita do compositor, artista sonoro e libretista Neo Muyanga, A Maze in Grace. ? ocasi?o, um coro de 40 vozes vai ocupar os tr s andares do Pavilh?o da Bienal, ao redor de seu v?o central, cantando uma nova composi??o para a melodia da conhecida Amazing Grace [Gra?a sublime], frequentemente apresentada como um hino de rituais de luto p blico em diferentes partes da ?frica, e que possui conota??o pol tica religiosa para a comunidade afro-americana nos EUA. O trabalho de Muyanga prop?e a desconstru??o e um novo olhar sobre a can??o, composta, em 1772, por John Newton, um traficante de escravos brit?nico branco que se converteu e tornou-se um pastor anglicano abolicionista no final do s culo XVIII ap s uma s rie de experi ncias de quase morte. O coletivo teatral paulistano Leg tima Defesa, que realiza a??es po tico-pol ticas de reflex?o e representa??o da negritude, tamb m participa da performance, assim como a artista Bianca Turner (n. 1984, S?o Paulo, Brasil), que assina o videomapping utilizado na obra.

Para al m de sua realiza??o no dia 8, que d  in cio ao programa da 34a Bienal de S?o Paulo, a nova obra de Muyanga se desdobra em outros dois momentos: a performance que, em julho, abrir  a 11a Bienal de Liverpool, institui??o parceira na realiza??o deste trabalho; e a instala??o audiovisual que integrar  a mostra coletiva da 34? Bienal, em setembro. Composta a partir de seu pa s, a ?frica do Sul, e com realiza??es no Brasil e Inglaterra, essa obra religa os v rtices do chamado “tri?ngulo do Atl?ntico”.

Segundo Paulo Miyada, curador adjunto da mostra, “  dif cil imaginar uma forma mais prop cia de abrir a programa??o de uma Bienal intitulada ‘Faz escuro mas eu canto’, pois Neo Muyanga relembra o quanto uma can??o de esperan?a est  marcada pela viol ncia e pela crueldade e, ent?o, reencanta sua sonoridade com elementos musicais e discursivos da hist ria dos homens e mulheres negros brasileiros e africanos justamente aqueles que protagonizaram e protagonizam a luta pela emancipa??o racial que d  sentido a essa can??o”.

Po tica do ensaio

Um dos aspectos norteadores do trabalho curatorial da 34? Bienal   a no??o de “ensaio”, que permite encarar o projeto como um processo, um espa?o onde as coisas se apresentam sem a ambi??o de ser definitivas, amplificando a import?ncia da ressignifica??o que surge das rela??es que se criam ao longo do tempo. ? nesse sentido que a expografia da individual de Garrido-Lecca configura a primeira apresenta??o do projeto arquitet?nico desta edi??o da Bienal, elaborado por Andrade Morettin Arquitetos. Segundo Jacopo Crivelli Visconti, curador geral da edi??o, “a arquitetura que abriga a primeira exposi??o   em si mesma um exerc cio, o gesto inaugural de uma constru??o que se estratificar  e ganhar  complexidade ao longo do ano. As obras de Ximena Garrido-Lecca e Neo Muyanga que se apresentam agora ir?o se carregar de outros significados ao entrar em rela??o com as de outros artistas, em setembro. Analogamente, o espa?o que a arquitetura j  delimita, mas que o primeiro movimento da exposi??o n?o ocupa, n?o   um espa?o vazio:   um espa?o em pot ncia”.?

34? Bienal de S?o Paulo

Marcada pelo encontro e potencializa??o m tua entre projeto curatorial e atua??o institucional, a 34? Bienal de S?o Paulo enfatiza a multiplicidade de leituras poss veis de uma obra e de uma exposi??o a partir do conceito de “rela??o”, abordado por pensadores como ?douard Glissant e Eduardo Viveiros de Castro, e adota uma estrutura de funcionamento inovadora, que envolve a realiza??o de mostras e a??es apresentadas no Pavilh?o da Bienal a partir de fevereiro de 2020 e a articula??o com uma rede de 25 institui??es paulistas. Quando o pavilh?o for inteiramente tomado pela mostra, a partir de setembro de 2020, essas institui??es promover?o, em seus pr prios espa?os, exposi??es de artistas que tamb m participam da? Bienal, enfatizando como a compreens?o de uma obra   sempre influenciada pelas “rela??es” que se criam com as obras que a rodeiam e com o contexto onde   exposta. Com curadoria geral de Jacopo Crivelli Visconti e equipe curatorial composta por Paulo Miyada (curador adjunto), Carla Zaccagnini, Francesco Stocchi e Ruth Est vez (curadores convidados), a 34? Bienal de S?o Paulo   intitulada “Faz escuro mas eu canto”, verso do poeta amazonense Thiago de Mello. Para as publica??es, Elvira Dyangani Ose atua como editora convidada, e sua participa??o   uma colabora??o com The Showroom, London.?

Para Jos  Olympio da Veiga Pereira, presidente da Funda??o Bienal de S?o Paulo, “a 34? Bienal acontece como fruto de um feliz encontro. Por um lado, h  uma institui??o que aposta na import?ncia do di logo e na pot ncia de sua rica teia de parceiros. Por outro, encontra-se um projeto curatorial que se apropria da voca??o e dos pontos fortes da institui??o e da cidade de S?o Paulo ao propor o formato in dito desta edi??o. Nos tempos e espa?os expandidos das mostras, espera-se multiplicar as possibilidades de contato e relacionamento com a arte, pois   em sua capacidade de transforma??o e abertura para o outro que residem a for?a e a motiva??o desta Funda??o”.

Para as tr s exposi??es individuais, foram convidadas artistas em meio de carreira de diferentes origens e pesquisas, que t m em comum o fato de serem autoras de produ??es relevantes, complexas e instigantes: al m da mostra de Ximena Garrido-Lecca, agora em fevereiro, ser  realizada em abril a mostra individual da brasileira Clara Ianni (n. 1987, S?o Paulo, SP) e, em julho, a exposi??o da fot grafa estadunidense Deana Lawson (n. 1979, Rochester, NY). A abertura da mostra de abril ser  simult?nea   apresenta??o de uma performance do argentino Le n Ferrari (1920-2013, Buenos Aires).?Uma terceira performance acontece na abertura da individual de Lawson, em julho: trata-se da obra in dita de H lio Oiticica (1937-1980, Rio de Janeiro), A Ronda da Morte, concebida pelo artista em 1979.?

Faz Escuro Mas Eu Canto?

Encarado mais como uma afirma??o que como um tema, o t tulo da 34? Bienal de S?o Paulo, “Faz escuro mas eu canto”,   um verso do poeta Thiago de Mello, publicado em livro hom?nimo do autor em 1965. Em sua obra, o poeta amazonense fala de maneira clara dos problemas e das esperan?as de milh?es de homens e mulheres ao redor do mundo: “A esperan?a   universal, as desigualdades sociais s?o universais tamb m (...). Estamos num momento em que o apocalipse est  ganhando da utopia. Faz tempo que fiz a op??o: entre o apocalipse e a utopia, eu fico com a utopia”, afirma o escritor. Jacopo Crivelli Visconti completa: “por meio de seu t tulo, a 34? Bienal reconhece o estado de ang stia do mundo contempor?neo enquanto real?a a possibilidade de exist ncia da arte como um gesto de resili ncia, esperan?a e comunica??o”.

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34? Bienal de S?o Paulo Faz escuro mas eu canto
Pavilh?o Ciccillo Matarazzo, Parque Ibirapuera
Entrada gratuita

Ximena Garrido-Lecca - visita??o
8 de fevereiro 15 mar?o de 2020
quarta domingo, 10h 18h

8 de fevereiro de 2020
abertura de exposi??o individual - Ximena Garrido-Lecca: 9h 18h
performance - Neo Muyanga com Leg tima Defesa + Bianca Turner: 11h (dura??o: 60 min)

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Equipe curatorial?
Curador geral: Jacopo Crivelli Visconti?
Curador adjunto: Paulo Miyada?
Curadores convidados: Carla Zaccagnini, Francesco Stocchi e Ruth Est vez?
Editora convidada: Elvira Dyangani Ose?em colabora??o com The Showroom, London

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