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    04 Fev 2020
    Correspond ncia #1

    Ao longo do ano de 2020, atrav s de cartas como esta, o corpo curatorial da 34? Bienal de S?o Paulo torna p blicas reflex?es sobre a constru??o da mostra. Esta primeira carta foi escrita por?Carla Zaccagnini.

    Li num livro sobre a hist ria da pintura de paisagem que Petrarca foi o primeiro homem moderno, por ter sido pioneiro em escalar uma montanha pelo prazer da subida ou para ver o mundo de cima e afastar o horizonte. Ou para saber como se via o mundo sem ele, separado dele, como um espa?o em que esse homem n?o se insere, do qual n?o participa. Parece mesmo haver uma certa coincid ncia entre a inven??o da era moderna e esse ponto de vista elevado ou   dist?ncia, objetivo, como se prefere chamar; porque tudo que n?o   o homem moderno passa, ent?o, a ser objeto. Da torre da catedral, que se estica buscando o c u,   torre do castelo, onde o rei sobe para dizer ao primog nito: “Um dia, meu filho, tudo isto ser  seu, at  onde a vista alcan?a”.

    ? o homem moderno que desenvolve a perspectiva na pintura, constr i miradouros e inventa o bal?o de ar quente. Belvederes, como se belo fosse ver o mundo de longe, as coisas menores do que s?o quando estamos com elas. Como se belo fosse ver que tudo se apequena diante desse sujeito, e que, assim diminuto, se apresenta para ele como amostra. ? essa posi??o de sujeito que autoriza o homem a escrever enciclop dias e a fundar museus.

    Curioso que os povos das selvas nunca tenham querido construir mirantes (e, portanto, nem museus). Ou n?o. A selva n?o se v , de cima, mais que como um mar de verde. O mar aqui entendido como quem o v  do barco, claro; como uma massa cont nua, quase s lida, que de perto n?o  . A selva   o oposto da vista panor?mica, do olhar em perspectiva. Na selva tudo se v  de perto e tudo   trama. As copas das  rvores se fundem, as folhas de uma escondendo as de outra escondendo as de uma. E o que est  sob os p s repete o que est  no alto, as folhas que caem cobrindo outras folhas cobrindo outras folhas cobrindo outras folhas. Troncos e ramos e galhos e cip s e cobras e folhagens. Por todos os lados. N?o h  lugar de onde olhar a salvo como se v  a selva sem n s. N?o h  panorama poss vel, n?o h  belvedere. A selva n?o se apequena nem se apresenta. Nem se tra?a o caminho a seguir. A trilha se faz abrindo o mato a fac?o, na medida do alcance do corpo, na for?a do bra?o, de um passo a outro passo.

    Pero Vaz de Caminha escreveu que a culpa foi s  das ondas; que o mar estava mexido e o som que n?o dava tr gua n?o deixou que se entendessem os que desceram do barco e os habitantes da terra. A manh? fosse de calmaria e a hist ria seria outra. Oswald de Andrade escreveu que o contratempo foi a chuva, que o clima de tempestade convenceu quem estava nu a passar a andar vestido. Fosse um dia de sol e a hist ria seria outra. Talvez a falha tenha sido o encontro ocorrer na praia. O tempo que se passou entre o grito de terra   vista e o desembarque na areia. O tempo que se passou entre as velas pontuando o horizonte e o desembarque na areia. Talvez o problema tenha sido a altura da g vea e o mesmo olhar   dist?ncia, as conclus?es que se foram tecendo enquanto se via o mar de cima e a terra firme adiante, e a pequenez dos vultos recortados sobre a areia que aumentados na luneta pareciam caber na m?o.

    Tivesse sido um encontro na selva era uns respirando no cangote e outros pisando nos calcanhares, todos diante dos narizes de todos diante dos narizes. Troncos e ramos e galhos e cip s e corpos e folhagens. Todos por todos os lados. E um s  v  o outro aos poucos, meio encoberto, meio escondido e s  quando j    muito tarde e j  est  muito perto, quando o ar que se respira   o mesmo e se sente mais quente ao sair dos pulm?es. Tivesse sido um encontro na selva e a hist ria seria outra.

    Imagem: Poramtim do Bom Socorro, 2017. Barreirinha, Amazonas. Casa de Thiago de Mello Projeto de Lucio Costa. Foto: Valdir Cruz

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