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    27 Fev 2020
    Correspond ncia #2

    Ao longo do ano de 2020, atrav s de cartas como esta, o corpo curatorial da 34? Bienal de S?o Paulo torna p blicas reflex?es sobre a constru??o da mostra. Esta segunda carta foi escrita por?Paulo Miyada.



    Um verso, muitos poemas

    Certa manh?, abrimos nossas caixas de email e encontramos uma mensagem de Carla Zaccagnini. Isso era o que ela dizia:

    “Pensamos muitos nomes para essa Bienal, de eclipse a tocaia. Pensamos cham -la de a esfera do interesse, o todo mais amplo, concatena??o sem fim, s  se aprende a nadar na  gua.?

    Pensamos chamar essa Bienal de Luzia, um nome de gente. O nome da gente mais antiga j  encontrada na Am rica do Sul. Um nome p stumo, dado a seus ossos. Luzia viveu 24 anos, dizem, e descansou sob a terra onze mil. Seus ossos viram a luz em 1975 e arderam em chamas em 2018, no Museu Nacional. Luzia. O passado interrompido, dito imperfeito, de um verbo que tanto significa dar luz como brilhar por conta pr pria. Um nome de mulher. Um nome de santa, da santa a quem atearam fogo e foi imune  s chamas. O nome da santa a quem arrancaram os olhos para que n?o visse mais a luz, nem a luz de seu nome. Nasceram-lhe novos olhos e lhe dizem santa da vis?o.?

    Decidimos cham -la Faz escuro mas eu canto, como o verso de Thiago de Mello publicado em 1965.?

    Decidimos cham -la Faz escuro mas eu canto. Porque estamos em tempos escuros. E o escuro em que estamos   feito. Porque queremos olhar para esse escuro, olhar nesse escuro. Deixar que as pupilas se dilatem para capturar a luz que ainda h  e come?ar a delinear vultos nas sombras. Porque o escuro n?o   s lido e insond vel.?

    Decidimos cham -la Faz escuro mas eu canto. Porque no escuro tamb m h  cantos. Porque as vozes que cantam se ouvem sem luz. Porque acreditamos na import?ncia do canto, nessa forma de dizer as coisas que cabe no verso, no poder do refr?o sobre a mem ria e do ritmo sobre o sangue, no impulso de aplaudir em p . Na for?a do coro. Faz escuro, ent?o cantemos”.

    Exerc cio textual, essa nota parecia muito mais segura da escolha final do t tulo do que efetivamente est vamos at  aquele momento. Uma escolha dessas n?o   tarefa linear. Por meses ainda houve idas e vindas, d vidas e pesquisas, at  se confirmar o que nas palavras de Carla j  parecia decidido.

    Uma etapa importante foi desenhar o percurso desse verso e o modo como ele ganhou e perdeu sentidos nos primeiros anos desde que foi escrito, porque talvez isso informe as m ltiplas leituras que ele pode receber hoje.

    O poeta amazonense Thiago de Mello escreveu o poema “Madrugada camponesa” entre os anos de 1962, no estado do Amazonas, e 1963, em Santiago, no Chile. Os  ltimos dois versos desse poema s?o: “Faz escuro mas eu canto/ porque a manh? vai chegar”. Versos de esperan?a endere?ados aos que atravessavam a noite do campo e precisavam plantar verdade, alegria e amor para um futuro iminente. Era um tempo com algumas promessas de transforma??o, regadas por projetos progressistas e algum desejo de expans?o dos direitos mais b sicos, como a educa??o.

    Quando o poema foi publicado em livro em 1965, por m, o horizonte era muito diferente. O Brasil havia sido clivado por um golpe militar apoiado por parte da sociedade civil e uma ditadura se consolidava. Poucos sinais de alguma manh?. O livro de poemas de Thiago de Mello foi chamado, simplesmente, Faz escuro mas eu canto. Dessa feita, mais insist ncia do que celebra??o.

    No ano seguinte, o verso voltou como t tulo de uma can??o do  lbum Manh? de liberdade, de Nara Le?o. Ela, uma das mais c lebres vozes de uma gera??o que se arriscou a falar e a cantar a liberdade do pensamento cr tico em tempos de cerceamento pol tico, encerrava seu disco com um novo poema musical composto por Thiago de Mello e Monsueto Menezes. A letra n?o era mais especialmente endere?ada aos camponeses, mas a uma multid?o disposta a “trabalhar pela alegria”.?

    Entre o lan?amento da can??o e o ano de 1968, essa multid?o ganhou fei??o e tomou as ruas, ao que se respondeu com mais repress?o e mais viol ncia. Thiago de Mello foi preso naquele ano e conta que entrou na pris?o temeroso por seu destino. Encontrou, ent?o, na parede da estreita cela, seus versos rabiscados pelo preso anterior: “Faz escuro mas eu canto/ porque a manh? vai chegar”. Sussurro e resist ncia. Retomou ent?o suas for?as e deve ter aprendido algo sobre a pot ncia da poesia.

    Em cinco anos, conforme mudava o mundo, transformavam-se tamb m as leituras desse verso. E agora, entrando em 2020, que reverbera??es esse enunciado po tico pode ter neste pa s e al m dele, em um mundo fraturado? Em setembro, quando a mostra principal da Bienal abrir, qu?o sombrio estar  o horizonte? ? imposs vel prever um dia desses, as cinzas da floresta em chamas deixaram escuro o c u da tarde paulistana...

    ***

    H  um outro poema c lebre, de Bertold Brecht, que diz: “In the dark times/ Will there also be singing?/ Yes, there will also be singing./ About the dark times.” [“Nos tempos sombrios/ Haver  cantoria?/ Sim, haver  cantoria./ Sobre os tempos sombrios.”]. ? similar, mas n?o   a mesma coisa. Com Thiago de Mello,   de se imaginar que se cantar  sobre os tempos sombrios, mas n?o apenas sobre eles. Isso   importante. Especialmente aqueles que se encontram mais amea?ados, sob a mira de projetos que desejam sua extin??o, sabem bem que nesse contexto todo canto   por si mesmo uma pot ncia de vida e, como tal, desafia o desejo de morte.

    Imagem: Antonio Dias, A imagem: O dia como prisioneiro, 1971. Cole??o: Jones e Paula Bergamin, Rio de Janeiro. Cortesia: Bergamin & Gomide. Foto:?Ding Musa

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